A política externa do governo Lula para o CACD: os três paradigmas e o que a banca cobra

Nidi Bueno 04 de agosto de 2026
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A política externa do governo Lula para o CACD: os três paradigmas e o que a banca cobra

Estudar a PEB de Lula governo por governo não passa. Entenda os três paradigmas de Amado Cervo, a política externa ativa e altiva e o que o CACD realmente cobra.

Poucos temas separam tão bem quem passa de quem estaciona no CACD quanto a política externa do governo Lula. A maioria dos candidatos estuda governo por governo, decora datas e nomes de chanceleres, e trava na hora de responder uma discursiva. O erro não é de conteúdo: é de método. A banca do Instituto Rio Branco não cobra a PEB de Lula isolada — cobra ela em diálogo com os paradigmas da América Latina e com a política internacional do século XX. É exatamente assim que o professor Nidi Bueno, presidente do Instituto Diplomacia, estrutura o tema. Este artigo entrega esse mapa por inteiro.

A leitura mínima obrigatória (o que a banca assume que você leu)

Antes de qualquer resumo, três obras são incontornáveis. Sem elas, você responde de ouvido — e a banca percebe.

Amado Cervo e Clodoaldo Bueno — o último capítulo

A História da Política Exterior do Brasil, de Amado Luiz Cervo e Clodoaldo Bueno, é uma das bíblias do CACD. O detalhe que derruba candidato: edições anteriores a 2012 não servem. Foi em 2012 que Cervo acrescentou o capítulo sobre a política externa do governo Lula — um capítulo debatido pela comunidade acadêmica de Relações Internacionais antes de ir ao prelo. É ali que aparece, traduzido em texto acadêmico, o conceito de política externa “ativa e altiva”, cunhado pelo chanceler Celso Amorim. Se você já leu e fichou, retome o fichamento ponto a ponto; se não leu, esse capítulo é inegociável.

Cervo — Relações Internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas

Esta é a obra que permite você diferenciar dos demais candidatos. É nela que Cervo apresenta os três paradigmas que organizam toda a leitura da PEB. E, atenção: ela não fica só na América Latina — dialoga com as grandes transformações da política internacional, dos anos 1930 ao fim do século XX. É essa ponte entre a América Latina e o mundo que dá profundidade à resposta.

Vigevani e Cepaluni

Amado Cervo é ponto de partida, não de chegada. Para fechar o raciocínio sobre o período Lula, Tullo Vigevani e Gabriel Cepaluni são inevitáveis — é a bibliografia que sustenta uma análise madura da diplomacia de 2003 a 2010.

A pergunta orientadora

Estude o tema com uma pergunta na cabeça, do começo ao fim: como a política externa do governo Lula dialoga com os paradigmas das relações internacionais da América Latina e com a política internacional do século XX? Guardar essa pergunta muda a forma de estudar: você para de ver governos soltos e passa a ver um sistema. E é assim que a segunda fase cobra — ligando Brasil, América Latina e mundo.

Política externa “ativa e altiva”: o conceito central

“Ativa e altiva” foi como a própria chancelaria de Celso Amorim definiu a política externa de Lula 1 e Lula 2 (2003–2010) — e como ela entrou para a historiografia. É um objeto de salvas e ressalvas: parte da literatura a lê como afirmação legítima de autonomia; outra parte, como o embaixador Paulo Roberto de Almeida, aponta deficiências e vê certo romantismo (o próprio Amorim, já ministro da Defesa, chegou a falar em “diplomacia do amor”, expressão que soou idealizada até para analistas simpáticos ao período). Para o CACD, o candidato não precisa tomar lado — precisa conhecer as duas leituras e saber situá-las conforme o espectro do analista.

O pano de fundo: o século XX como a era dos extremos

Você não entende o paradigma neoliberal — nem, por contraste, a virada de Lula — sem a moldura secular. Seguindo Eric Hobsbawm, o liberalismo nasce no século XVIII, consolida-se no Ocidente no século XIX e, no século XX, trava suas batalhas contra dois inimigos: à esquerda, o comunismo (vitorioso na Revolução de Outubro de 1917); à direita, o fascismo (a partir da Marcha sobre Roma, 1922). Em 1945, liberais e comunistas se unem numa aliança tênue para derrotar o fascismo; vencido o nazismo, a amizade dura pouco, e vem a Guerra Fria.

O liberalismo derrota o comunismo não por combate direto, mas por implosão: 1989 — a queda do Muro de Berlim, Tiananmen, as eleições diretas no Brasil (“Berlim, Pequim, Brasília”). É esse “vento liberal” que sopra sobre a América Latina nos anos 1990 e produz, como veremos, o paradigma neoliberal. Dominar essa moldura é o que permite responder por que a década de 1990 foi como foi — e por que Lula representa uma inflexão.

Os três paradigmas de Amado Cervo

Aqui está a espinha dorsal do tema. Cervo propõe três paradigmas para a América Latina — e é dentro deles que a PEB brasileira ganha sentido. O ponto de método: o paradigma é um modelo, uma representação simplificada de uma realidade complexa. Não é a realidade; é a ferramenta para lê-la.

1. Paradigma nacional-desenvolvimentista

Construído com Vargas, tem três pilares: o Estado como principal promotor do desenvolvimento; a indústria como motor desse desenvolvimento; e o Estado empresário — que não apenas cria condições, mas empreende. É a lógica da indústria de base: a Companhia Siderúrgica Nacional e a Vale do Rio Doce nascem estatais; depois, a Petrobras.

Esse paradigma perpassa governos de ideologias opostas — é política de Estado, não de governo. Não termina com Vargas: JK o mantém (Estado empresário que constrói Brasília inteira), mas abre para o capital estrangeiro na indústria de bens de consumo duráveis (a automobilística — Ford, Volkswagen). No plano latino-americano, Cervo emparelha os casos: Vargas está para o Brasil como Perón para a Argentina; JK como Frondizi. E o paradigma atravessa até o regime militar: o “milagre econômico” de Médici assenta sobre um tripé clássico — endividamento externo, achatamento salarial e pesados investimentos públicos (Itaipu, a ponte Rio-Niterói, a Transamazônica, a Embraer, a Embrapa). A Constituição de 1988, em seu texto original, ainda carrega a marca desse paradigma (o conceito de “indústria nacional” como aquela detida por brasileiros).

2. Paradigma neoliberal

Cervo chamou os anos 1990 de “década perversa” (contraponto à “década perdida” dos anos 1980). É o paradigma do Consenso de Washington — os dez pontos de convergência entre economistas reunidos em Washington, que viraram símbolo do que os adversários chamaram de neoliberalismo. Privatização, redução do papel do Estado, livre-cambismo. A indústria segue vista como motor, mas o Estado deixa de ser empresário: o capital, nacional ou estrangeiro, circula livre. Na América Latina, os exemplos são Salinas de Gortari e Zedillo no México, Fujimori no Peru e, para Cervo, o caso mais acabado do paradigma: Menem na Argentina (cujo ministro Cavallo chegou a falar em “relações carnais” com os Estados Unidos). No Brasil: Collor, Itamar e o primeiro governo FHC.

3. Paradigma do Estado logístico

É a virada do segundo governo FHC. Depois das crises em cadeia (México em 1994, asiática em 1997, russa em 1998), há um freio no livre-cambismo e nas políticas macroeconômicas contracionistas. Já em 1998, FHC percebe que não se reelegeria com aquelas políticas, tira o pé do acelerador e, no segundo mandato, cria uma série de agências reguladoras (ANAC, entre outras). O Estado não volta a ser empresário, mas também não é mínimo: torna-se provedor de logística — infraestrutura física e humana — para que o setor privado promova o desenvolvimento. É a posição intermediária: “nem tanto ao céu do Estado empresário, nem tanto à terra do Estado mínimo”. É também com FHC que a ideia de “América Latina” perde fôlego para a de América do Sul, reforçada pelo Mercosul.

Onde entra o governo Lula

Aqui está a tese que a banca quer ver: para Cervo, Lula 1 e 2 dão continuidade ao Estado logístico inaugurado no segundo FHC. Assim como Menem foi a forma mais acabada do neoliberalismo, e Vargas e Perón do nacional-desenvolvimentismo, a dupla Lula-Amorim é a melhor tradução do paradigma do Estado logístico. A política externa “ativa e altiva” projeta o país sem reeditar nem o Estado empresário nem o Estado mínimo. O candidato que responde “Lula rompeu com FHC” erra o enquadramento; o correto é continuidade com aprofundamento.

A diplomacia presidencial

Lula amplia um elemento que já vinha do segundo governo FHC: a diplomacia presidencial — o chefe de Estado assumindo papel central e direto na ação externa, teorizada por Celso Lafer. Não é coincidência que ela ganhe força com FHC, professor e primeiro presidente PhD do Brasil, e se aprofunde com Lula, que faz da presença pessoal em cúpulas e viagens um instrumento de política externa. Saber que a diplomacia presidencial é um fio de continuidade FHC → Lula (e não uma invenção do período petista) é o tipo de precisão que a banca premia.

Como a banca cobra PEB

Três disciplinas conversam o tempo todo: Política Internacional, História do Brasil e Economia — as duas primeiras da “fauna discursiva” e a terceira como fator de desempate. O tripé do milagre pode cair em qualquer uma delas; os paradigmas de Cervo aparecem tanto no TPS quanto na discursiva. Um alerta conceitual que a banca adora: a diferença entre “política externa” e “política exterior” — distinção que Cervo trouxe da tradição francesa e que qualquer discursiva de PI ou HB pode exigir. A regra de ouro: nunca estude PEB isolada da América Latina e do mundo.

Como estudar PEB de forma estratégica

Fechar o caderno de PEB não é ler um resumo — é dominar os paradigmas e conseguir ligá-los a Vargas, JK, aos militares, a FHC e a Lula sem consultar nada. No Instituto Diplomacia, PI é dividida em três frentes (atualidades, PEB e PI do edital), justamente para o candidato cobrir o tema por inteiro. O caminho: leitura mínima obrigatória → fichamento por paradigma → treino de discursiva no padrão do Instituto Rio Branco → diagnóstico do que ainda não está automático (o BDI aponta a disciplina que precisa de reforço). Conteúdo você tem; o que vira aprovação é método e regularidade.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre política externa e política exterior?

São conceitos distintos, com origem na tradição acadêmica francesa e sistematizados no Brasil por Amado Cervo. A banca pode cobrar essa diferença em discursivas de PI e de HB, então domine a distinção — não use os termos como sinônimos.

Em qual paradigma se enquadra a política externa do governo Lula?

No paradigma do Estado logístico, inaugurado no segundo governo FHC. Lula 1 e 2 dão continuidade a ele, com a política externa “ativa e altiva” e o aprofundamento da diplomacia presidencial.

O que significa política externa “ativa e altiva”?

É a definição dada pela chancelaria de Celso Amorim à diplomacia de Lula (2003–2010): ativa na presença internacional e altiva na afirmação de autonomia. Foi teorizada por Amado Cervo e é objeto tanto de elogios quanto de críticas na literatura.

Quais são os três paradigmas de Amado Cervo?

O nacional-desenvolvimentista (Estado empresário, indústria como motor — de Vargas aos militares), o neoliberal (Consenso de Washington, privatização — Collor a FHC 1) e o do Estado logístico (Estado provedor de logística — FHC 2 e Lula).

Preciso decorar todos os governos para ir bem em PEB?

Não. O que a banca cobra é a leitura por paradigmas e a capacidade de ligar os governos a eles e ao contexto latino-americano e mundial. Decorar solto é o que faz o candidato estacionar.

PEB cai mais na objetiva ou na discursiva?

Nas duas. Os conceitos aparecem no TPS (objetiva) e são exigidos com profundidade nas discursivas de PI e HB, que dialogam com Economia. Por isso o tema é central para a segunda fase.

Qual a bibliografia mínima sobre a PEB de Lula?

O capítulo sobre o governo Lula na História da Política Exterior do Brasil (Cervo e Bueno, edição de 2012 em diante), a obra de Cervo sobre os paradigmas das relações internacionais da América Latina, e Vigevani e Cepaluni.

Este artigo é uma sistematização da aula do professor Nidi Bueno, presidente do Instituto Diplomacia. Para estudar PEB com diagnóstico individual (BDI) e correção no padrão do Instituto Rio Branco, conheça a preparação do Instituto Diplomacia.

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